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Doutrina

O que significa "Edificar a Casa" no Evangelho de Mateus?

Por Tiago Abdalla T. Neto

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1. Considerações Introdutórias

Primeiramente, e necessário compreender aspectos introdutórios que cercam o livro onde se encontra o texto da presente análise. O evangelho desde cedo, no século II, fora aceito pela tradição cristã como tendo sido escrito pelo apóstolo Mateus. A expressão “Estando Jesus em casa ...” (Mt 9.10) após a chamada para que Mateus, o cobrador de impostos, o seguisse, tem sido apontado como evidência interna da autoria do apóstolo, já que o texto paralelo de Marcos 2.15 aponta a casa como sendo a de Mateus. Sendo assim, o texto de Mateus 9.10 seria entendido como “Estando Jesus em minha casa”, indicando que Jesus estava comendo na casa do autor do evangelho. A data para o evangelho dentro do círculo conservador tem sido indicada entre 50-60 A.D, antes da queda de Jerusalém, pois não se vê indicações de que tal acontecimento já ocorrera e pelo apontamento de que este ainda era futuro da perspectiva do próprio autor (Mt 24.2). Além disso, a ênfase na defesa da messianidade de Cristo como tonos do livro requer uma época onde a igreja era, ainda, como parte considerável, judaica.

Os destinatários, portanto, eram judeus (isto é, ainda, ratificado pelos testemunhos de Ireneu e Orígenes), e o autor do livro busca mostrar a esses cristãos de que ao crerem em Jesus, não estavam traindo os ideais do povo de Deus, mas, ao contrário, o próprio Jesus era o cumprimento messiânico das profecias encontradas nas Escrituras (1.22-23; 2.15, 17-18, 23; 4.14-16; 8.17; 12.17-21; 13.35; 27.9-10). E não somente desenvolve uma apologia, como esclarece o plano de Deus, tendo em vista a rejeição judaica, para o reino na presente era, enquanto este não fosse implantado de modo pleno pela vinda do Messias, o “Filho do Homem” (cf. 28.16-20; quanto ao estabelecimento do reino de maneira completa, ver 24 - 25).

Em segundo lugar, é preciso compreender de modo sucinto a ênfase da seção do livro em que o texto se acha. Tal seção pode ser demarcada entre Mateus 5.1 – 7.29 e conhecida como o “Sermão do Monte”. É geralmente aceito pela maioria dos comentaristas e o próprio texto evidencia isto, que o propósito desta narrativa se dá em mostrar Jesus, o Rei, instruindo seus discípulos, os súditos do reino de Deus, acerca dos princípios que deveriam dirigir suas vidas (Mt 5.1-2). Portanto, é neste contexto de ensinamentos acerca da vida ética requerida dos cidadãos do reino de Deus que o texto deve ser entendido.

2. Análise de Mateus 7.24-27

Como muitas das parábolas, este texto é esclarecido pelo contexto que o cerca. Sendo assim, faz-se mister analisá-lo para uma interpretação correta do propósito pelo qual Mateus inseriu tal ilustração de Jesus nesta parte de seu escrito.

O presente parágrafo vem em seguida de vários contrastes estabelecidos por Jesus que são introduzidos pela afirmação de 7.12: “Tudo aquilo, portanto, que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles, pois esta é a Lei e os Profetas” (BJ - Bíblia de Jerusalém, grifo pessoal). A partir de então, Cristo enfatiza o desafio e o valor de se viver (isto é, fazer, praticar) tal como as suas instruções dadas ao longo de todo o “Sermão do Monte” que estão em total conformidade com a Lei e os Profetas (Mt 5.17- 19). O primeiro contraste tem como propósito mostrar a dificuldade de viver a ética do reino, mas também, a recompensa que se encontra àqueles que fazem parte dele. Isto aparece ao destacar as diferenças entre a porta estreita e caminho apertado com o caminho largo e espaçoso, entre os poucos que encontram o primeiro caminho e os muitos que entram pelo segundo. Os destinos, também, aparecem com contrastes entre a vida como o fim do primeiro grupo e a perdição do segundo grupo (7.13-14). É necessário observar que a ênfase de Jesus não está nas obras como meio de salvação, mas sim, que aqueles que “encontraram” a porta estreita, difícil de achar, do caminho que conduz a vida, pagariam um alto preço em sua jornada.

Em seguida, inicia-se o alerta a respeito dos falsos profetas que são uma ameaça àqueles que procuram encontrar o caminho estreito e por ele seguir. O modo como os discípulos reconheceriam tais pessoas é indicado, novamente, por dois antagonismos que são árvore boa e frutos bons com árvore má e frutos maus (7.15-20). Além disso, estes enganadores não entrariam no reino dos céus, pois há uma diferença eterna entre o mero discurso de submissão a Cristo e a realidade prática da obediência a Ele (7.21- 23), ficando nítido que não encontraram a porta estreita, nem por ela entraram. Por mais que tivessem feito vários atos sobrenaturais, isto por si só não lhes garantiria a vida, visto que a demonstração de que realmente sua fé estava em Cristo se dava pela escolha de fazer a vontade de Deus, o que não ocorrera.

Diante do valor de não apenas professar submissão a Cristo, mas também, praticar a vontade de Deus é que Jesus usa a ilustração dos dois construtores e das duas casas em 7.24-27. A partícula pospositiva gar (pois, portanto, então) indica isto. Além do que, o próprio Cristo anuncia tal fato, ao introduzir cada quadro, dizendo “todo aquele que ouve essas minhas palavras e as põe em prática será comparado ao ...” (v. 24, BJ) e “todo aquele que ouve essas minhas palavras, mas não as pratica, será comparado ao ...” (v. 26, BJ). Sendo assim, pode-se inferir que as palavras de Cristo, ou seja, o ensino de Cristo é o mesmo que “... a vontade de meu Pai que está nos céus” (7.21, BJ), pois a submissão prática a Ele só é possível quando se realiza a vontade de Deus (7.21-23), deixando muito claro a autoridade do ensino de Cristo, o que foi logo percebido pelas multidões que o ouviram (7.28-29).

Os contrastes, mais uma vez, se encontram nesta seção. São nítidos e óbvios. O que ouve e pratica e o que ouve e não pratica, o construtor sábio e o construtor louco, a casa construída sobre a rocha e a casa construída sobre a areia, a que está sobre a rocha não cai diante das pressões naturais e a que está sobre a areia cai, sendo grande a sua ruína.

Isto posto, o homem ...


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BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ABBA PRESS EDITORA. Os quatro evangelhos. São Paulo: Abba, 2005.
DAVIDSON, F. O Novo Comentário da Bíblia. 3 ed. São Paulo: Vida Nova, 1995.
GINGRICH, F. Wilbur. Léxico do Novo Testamento grego/português. São Paulo: Vida Nova, 1984.
HARRISON, Everett (Edit.). Comentário Bíblico Moody. São Paulo: IBR, 1983. v. 4.
PINTO, Carlos Osvaldo. Teologia Bíblica do Novo Testamento I. Atibaia, SP: SBPV (Seminário Bíblico Palavra de Vida), 2000. (Apostila preparada para a disciplina de Teologia Bíblica do Novo Testamento 1).
STOTT, John W. Contra cultura cristã.São Paulo: ABU, 1981.
UNITED BIBLE SOCIETIES. The greek New Testament. 4.ed. USA: United Bible Societies, 1983.

Originalmente publicado com o título "Análise Hermenêutica de Mateus 7:24-27.".





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» Comentários até agora: 3.

Em 17/07/2012, às 09:24, Cacau, de Salvador, ponderou:
oi tudo bem
Em 26/04/2010, às 15:45, Ilson Vieira, de Nina Rodrigues-ma, ponderou:
em 1º lugar, obrigado por nos abençoar com belo comentário como esse feito, creio dessa forma. mas nunca me atentei da forma como está colocada a interpretação do texto. que Deus vos abençoe. abraços.
Em 29/09/2009, às 19:21, Carlos Rostock, de Alphaville, ponderou:
Que pena q este estudo acabou tão rápido. Excelente! Quero beber mais das tuas fontes Jesus! Deus abençoe o irmão. Abs

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